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É frequentemente dito que os anarquistas vivem num mundo de sonhos por vir.Que não vêm as coisas que acontecem hoje. Nós vemos, demasiado bem... E nas suas verdadeiras cores, é isso que nos faz carregar o machado para a floresta de preconceito que nos rodeia!
Em Junho de 2003 durante os protestos contra a cimeira da União Europeia em Salónica (Grécia) mais de 100 pessoas foram detidas. 29 foram acusadas sendo que a grande maioria foi posteriormente libertada tirando 7 pessoas.Por ausência de prova, prova em contrário ou dúvida, o tribunal deu como não provados os actos apresentados pelo Ministério Público que eram por esse atribuídos aos arguidos e que se podiam enquadrar nos crimes de ofensa à integridade física agravada qualificada, injúria agravada e coacção e resistência sobre funcionário. Assim, todos os arguidos foram absolvidos de todas as acusações.
Supermercado é expropriado
Ontem, segunda-feira, 7 de junho, um coletivo chamado os “40 ladrões, mas sem Ali Babá”, expropriou um supermercado da rede "My Market”, no subúrbio ateniense de Egaleo. O material expropriado, basicamente produtos de necessidades básicas, foi distribuído numa praça popular do bairro.
Em Larissa, quatro anarquistas estão sendo processados por terem expropriado um tempo atrás um supermercado, o julgamento deve acontecer em dezembro de 2010.
Novo espaço ocupado em Tessalônica
Neste último sábado, 5 de junho, foi ocupada a “12º Escola Primária”, um amplo imóvel que estava abandonada há anos em Tessalônica. O objetivo desta nova ocupação é a criação de uma Escola Auto-organizada e Libertária. Durante o final de semana, sábado e domingo, foi realizada uma jornada de apresentação do projeto e reabilitação do local, com um mutirão de limpeza, discussões sobre pedagogia libertária e uma festa. Diversas pessoas compareceram no evento, inclusive muitos vizinhos e crianças.
Fotos:
› http://athens.indymedia.org/front.php3?lang=el&article_id=1181330
› http://athens.indymedia.org/front.php3?lang=el&article_id=1181532
Policiais que mataram Alexis são soltos
Depois de 18 meses em prisão preventiva os policiais Epaminondas Korkonéas, 38 anos, e seu colega, Vassilios Saraliotis, de 32 anos, que assassinaram Alexis Grigoropoulos em 6 de dezembro de 2008 no centro de Atenas, foram soltos na madrugada do último domingo, 6 de junho.
Festival do livro libertário em Tessalônica
De 2 a 5 de junho aconteceu o 1º Festival do Livro Libertário de Tessalônica. Além das banquinhas de livros e outros materiais, o evento contou com uma série de palestras e discussões, sob o mote “crise, resistências e utopias”.
Liberdade para Pawlak Michal
Michal Pawlak é um anarquista da Polônia que foi preso na Grécia em 6 de dezembro de 2009 durante as manifestações de um ano do assassinato de Alexis Grigoropoulos e a revolta que se seguiu. Desde então ele permanece na prisão aguardando julgamento. Como é de costume nestes casos, ele foi acusado pela polícia grega com base em evidências infundadas e circunstanciais, como por exemplo, a sua camiseta que tinha um slogan anti-polícia escrito por ele. Nas próximas semanas um conselho de juízes decidirá se ele permanecerá na prisão.
Para enviar cartas:
Michal Pawlak
Pteriga A
Filakes Koridallou
18110
Koridallos, Athens
Grécia
agência de notícias anarquistas-ana
fim de caminho
o pôr-do-sol começa
dentro de mim.
Luciana Bortoletto

Milhares de pessoas juntaram-se ontem no marquês de pombal, em protesto contra as medidas de austeridade impostas pelo actual governo. Privatizações, diminuição de apoios sociais (nomeadamente para os mais necessitados), ou congelamentos salariais foram algumas das políticas denunciadas pelas pessoas que participaram na manifestação convocada pela CGTP, desde o jovem «falso recibo verde» à metalúrgica sob ameaça de despedimento colectivo.
O protesto ficou marcado por pequenas escaramuças entre alguns manifestantes e o serviço de ordem da CGTP – composto por seguranças profissionais – que controlavam o acesso à avenida da liberdade. Alguns elementos do serviço de ordem da CGTP, questionados pelo Indymedia, afirmaram que o "grupo" podia integrar a manifestação mas que, dado que não tinha havido um contacto prévio, o grupo só poderia entrar no final das organizações sindicais e outras apoiantes (partidos incluídos)A vontade dos primeiros, contudo, conseguiu vencer os ímpetos autocráticos dos segundos.
Já após o final da manifestação, na rua das portas de santo Antão, a tentativa de detenção de uma pessoa por parte da PSP, alegadamente por não ter pago um café, originou protestos. As autoridades, sem qualquer pré-aviso, carregaram sobre as pessoas que se encontravam na rua (manifestantes, turistas, clientes dos cafés e transeuntes), tendo provocado alguns feridos. Grande parte dos agentes não se encontrava identificado.Nos locais onde se concentra, tenta, por todos os meios, aumentar ao máximo a sua própria rentabilidade. Quando as condições não lhe são tão favoráveis, não se inibe em zelar para que se alterem. É o que se passa neste momento, em que a folia financeira conheceu alguns limites, o que, num mundo dividido entre capital e trabalho e baseado na necessidade de crescimento eterno, só pode significar que a corda parte do lado do segundo para a manutenção da prosperidade do primeiro.
E temos, assim, por um lado, massas enormes de pessoas a deslocarem-se à mercê das “necessidades do mercado”, rompendo com as suas terras e raízes e, por outro, a pressão para que todas as protecções sociais se evaporem. De forma a que sejamos todos apenas mais um do enorme exército de escravos que as altas finanças precisam para sobreviver. A expansão terminou e só o crescimento da miséria permite fazer face à situação.
Há mais de dez anos que o Banco Mundial tornou público que sabe que as coisas se processam desta maneira: “A pobreza urbana chegará a ser o problema mais importante e politicamente mais explosivo do próximo século” (documento de trabalho do grupo de investigação Finanças e Desenvolvimento, Banco Mundial, Janeiro 2000). Também já não escondem que o sonho da “prosperidade para todos” que nos venderam se revelara falso, a acreditar nas palavras do insuspeito Joseph E. Stiglitz, ex-chief economist e senior vice president do mesmíssimo Banco Mundial: “Apesar das repetidas promessas de reduzir a pobreza feitas nos últimos dez anos do século XX, o número efectivo de pessoas que vivem na pobreza aumentou quase cem milhões” ( Joseph E. Stiglitz, La globalizzazione e i suoi oppositori, Einaudi, Torino, 2003, p. 5).
Ao invés de pensarem em alterar o modelo para inverter a tendência, os seus responsáveis decidiram, como sempre, tratar de se protegerem das consequências. À esquerda e à direita, nos “países desenvolvidos” e nos “em desenvolvimento”, a simples presença duma força de trabalho sem rendimentos mas com as mesmas necessidades básicas de todas as outras pessoas é um pesadelo vivo. O medo provocado pelas reacções destes “fora do sistema” é imenso e provoca a mesma reacção securitária. Mais polícias, mais prisões, videovigilância, produção contínua de emergências, muros, torniquetes, registo biométrico, armas neutralizantes. Eis a resposta.
Quando o quadro se alarga, a panaceia revela-se global. A Nato, no seu relatório Urban Operations in the Year 2020 (elaborado pelo grupo de estudos SAS 30 – onde participam, desde 1998, experts do Canadá, Itália, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Estados Unidos – e tornado público em 2003) reconhece que a tendência para que se produzam tensões ligadas à existência de bairros de lata e condições de pobreza “poderia crescer significativamente no futuro, conduzindo a possíveis sublevações, desordens civis e ameaças à segurança que imporão a intervenção das autoridades locais”.
O que está em jogo, então, é apenas a capacidade das forças militares administrarem situações de conflito assimétrico, onde o inimigo não é um exército regular, mas uma massa heterogénea de “irregulares”. Por outras palavras: na crescente periferia metropolitana, quanto mais o inimigo se torna interno, mais impossível se torna enfrentá-lo com os métodos tradicionais dos bombardeamentos e da destruição integral das cidades, uma vez que o bairro de lata fica mesmo ao lado do condomínio fechado que se pretende proteger.
É um passo lógico nesta guerra civil global que se vai desenrolando e adaptando às características de cada terreno particular. A realidade europeia não se pode comparar à do Afeganistão, Iraque ou Haiti, mas tomemos o exemplo de L'Áquila, cidade italiana vítima dum terramoto devastador, em 2009, para se ver que não estamos, afinal, assim tão distantes. Depois do sismo, a máquina militar entrou rapidamente em acção, ocupando o território e experimentando técnicas de guetização da população em campos de refugiados fechadíssimos, com regras internas tão severas como absurdas. Não era permitido cozinhar, nem utilizar a internet ou consumir excitantes (café, vinho, chocolates), nem reunir-se para debater. As pessoas foram transformadas em escravos de laboratório, depois de despojadas de tudo pela força da natureza e pelas más construções com origem na ganância dos construtores, os mesmos que, agora, lucram com a reconstrução. O Terceiro Mundo, como coisa distante, deixou de existir. O Terceiro Mundo é aqui.
Para os mais descrentes, recomenda-se a leitura do Anexo E do relatório Urban Operations in the Year 2020, onde se simula uma operação da Nato num teatro de operações no qual as “cidades de interesse estratégico” não são Teerão nem Cabul mas as francesas Rouen, Le Havre, Evreux e Dieppe.
O inimigo é cada vez menos um exército convencional e cada vez mais uma entidade informal de guerrilheiros urbanos, massas completamente desapossadas, formações “terroristas” e também grupos menos organizados como os que emergem em situações insurreccionais. O controlo preventivo e a repressão de sublevações ou insurreições serão cada vez mais uma prerrogativa dos exércitos, que passará a ter funções de verdadeira polícia territorial, ao mesmo tempo que esta se militariza.
É este o quadro de fundo da teoria do estado de guerra permanente que se tem vindo a definir nos últimos vinte anos, uma teoria que parece feita especificamente para levar a cabo uma guerra global de baixa intensidade contra as franjas mais desesperadas da humanidade, a ter lugar nas periferias esfomeadas, independentemente de onde se situem. É esta a base que sustém o novo conceito estratégico da Nato, que será assinado em Novembro, na cimeira da Aliança Atlântica que se realizará em Lisboa. Atente-se a duas citações do documento Análises e recomendações do grupo de experts sobre um novo conceito estratégico para a Nato:
Dado o carácter de mudança e de crescente variedade de perigos para os estados membros, os Aliados deveriam fazer um uso mais criativo e regular das consultas autorizadas pelo artigo 4 (o Artigo 4 diz que os aliados se devem consultar “quando, na opinião de qualquer um deles, a integridade territorial, a independência política ou a segurança de alguma das Partes está ameaçada”)
e
O conceito estratégico deverá incluir uma declaração clara de prioridades de defesa. Estas começam com a capacidade de defender o território da Aliança, mas incluem a capacidade de levar a cabo missões exigentes a uma distância estratégica, ajudar a moldar a paisagem de segurança internacional, e responder a contingências imprevistas quando e onde for necessário. O Nível de Ambição (Level of Ambition ) oficial da Nato foi criado em 2006; não há necessidade de modificar esse enquadramento, apesar da definição da missão poder ser alargada de forma a incluir novas exigências para a segurança interna.
“Uma das armas do capital consiste no facto da população, proletariado incluído, não imaginar até onde o Estado avançará com a guerra civil”, escrevia Jean Barrot no distante ano de 1972. A tomada de consciência do nível a que o Estado está disposto a chegar com a guerra civil, consciência que ilumina os olhos dos putos palestinianos que atiram pedras ao tanque ocupante e que incendeia as ruas gregas, continua a faltar por aqui, adormecidos que andamos pelo sonho do “agora é que vai ser” e acomodados pela moral do “esperemos que não me toque a mim”.