sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

[Grécia] Terceira sessão do julgamento da Conspiração das Células de Fogo

Na manhã de 10 de Fevereiro os três acusados que estão em liberdade condicional Emmanuel G,. N. Vogiatsakis, E. Rallis e Mitrousias A. que está outra vez detido foram a tribunal e os seus advogados pediram que a equipa de três juízes do tribunal de apelação fosse destituída porque, segundo eles, há forte suspeita de parcialidade e preconceito da sua parte.

Representantes da Ordem dos Advogados de Piraeus foram a este julgamento para intervir, tendo em conta os acontecimentos da última sessão. Estes representantes foram ver com os próprios olhos as condições em que está a decorrer o julgamento e possivelmente fazer uma reclamação. A delegação anunciou isto ao tribunal através do advogado de defesa K. Papadakis como uma medida de pressão sobre os juízes.

Eles acusaram-nos de violações processuais, de querer guardar a identificação de quem queria assistir ao julgamento, de não gravar as sessões, das nomeações dos advogados de defesa, de enviar as notas processuais para a Procuradoria e para a Associação de Advogados de Atenas.

O pedido de isenção não implica Constantina Karakatsani, pois ela manteve os seus advogados iniciais. O julgamento foi adiado para a semana seguinte.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Destruição "legal" do jardim da Cosa

"Jardim" da cosa completamente destruído

Dia 15 de Fevereiro, uns quantos fiscais da câmara municipal acompanhados de bófia à paisana, chegaram à COSA e roubaram todas as plantas que tínhamos no exterior da casa. Não avisaram antes, não nos deixaram retirar os vasos para o interior da casa e destruíram uma boa parte deles ao atirá-los para dentro de uma carrinha. Tínhamos uma juca enraizada no chão que foi cortada à machadada.
Por suposta "ocupação ilegal da via pública". Quem conhece o nosso espaço sabe que as plantas estavam o mais junto possível à fachada da casa e o passeio é largo para que se possa passar, apesar dos carros todos.

Das duas uma: Ou estes gajos consideram mesmo que o importante é tirar as plantas às pessoas ou isto é mais uma vingançazinha sobre a Cosa.
Até uns tecnocratas inúteis deveriam ser capazes de perceber que, nos dias de hoje, criminalizar e perseguir quem pretende dar um pouco de verde à sua rua é um sinal descarado de má formação e, sobretudo, burrice. Vai contra aquilo que é natural num ser humano.
É sabido que nós temos posições «radicais»: como acreditarmos que ninguém deve poder mandar nas vidas, nas casas e nas ruas dos outros. Mas isto roça já o surreal... Como é possível que se empenhem em perseguir uns vasos e arbustos? E chamam a isso trabalho?! Porque é que não se (pre)ocupam com as ruas deles? Porque aqui neste nosso bairro as pessoas acarinhavam e respeitavam este jardim.

Daí que, por uma mera questão de lógica, nos pareça que aqui se esconde uma vingança mesquinha. Não nos apanharam em tribunal, não nos conseguem pôr fora daqui, não nos calam e nunca nos vão submeter. E nós ficamos ainda mais cientes de que vocês, figuras da autoridade, estão mesmo dispostos a qualquer coisa e nunca terão escrúpulos.

Acções legais destas são um claro exemplo de que está na hora de mandar estes gajos às urtigas e começarmos a recuperar e gerir a nossa autonomia. Odiamos esta ordem, esta lei e aquilo em que querem transformar a cidade!

São a ligação e o amor que temos a esta terra que nos fazem querer lutar contra co-incinerações e resorts de luxo. E um dia vermos mais jardins selvagens a crescer!

Casa Ocupada de Setúbal Autogestionada

Fotos aqui.

It's the end of the World as we know it and I feel fine! Part 2



1. Off with their heads
2. Anarquía en España
3. The Master Warriors of Insurrection
4. La Rage
5. Report from Belarus

Parte um aqui.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Fee Marie Meyer detida enquanto aguarda julgamento

Na tarde de 9 de Fevereiro Fee Marie Meyer ficou em prisão preventiva. Apesar de os media gregos terem sido forçados a admitir que as histórias que foram publicadas foram todas forjadas em conjunto com a polícia Meyer foi enfiada para a prisão. Depois de tudo o que se passou, ela tornou-se num assunto demasiado embaraçoso para ser deixada em liberdade. Da maneira que o caso está, o seu único crime é ser anarquista...

Caso Fee vá mesmo para a prisão, tornar-se-à na 50ª pessoa a estar detida na Grécia devido à sua ideologia política. Sendo de dessas 50 pessoas 41 são anarquistas fica bem patente o grau da repressão que por lá se vive!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Apelo a concentrações junto à embaixada e ao consulado da Grécia em Portugal em solidariedade com a luta dos imigrantes em greve de fome

A migração não é um crime, nem um problema. É a política da União Europeia, que é criminosa e altamente problemática. O Pacto Europeu sobre Imigração e Asilo de 2008- essa política desumana que os persegue há anos- foi agora reforçado numa versão mais agressiva do que nunca.. Embora as medidas necessárias em matéria de asilo e de imigração sejam mencionadas o objetivo principal é o reforço das fronteiras,a exclusão e a expulsão.

É uma declaração de guerra contra os imigrantes. uma proibição explícita da legalização dos imigrantes em geral.

Desde 25 Janeiro 2011 são 300 os imigrantes na Grécia em greve de fome, para exigir a sua legalização

A privação de direitos de pessoas por causa de sua origem não acontecerá apenas na Grécia, mas em toda a Europa.
A solidariedade para com a sua luta passa por uma oposição concreta ao reforço de fronteiras e à exclusão dos imigrantes, tal como praticada na Europa.

Os imigrantes em greve da fome na Grécia decidiram lutar pelos seus direitos. E com toda a razão! Num clima de repressão brutal em que aumentam as polémicas anti-imigrantes,em que as perseguições são já visíveis por todo o lado, os mortos e feridos por xenofobia começam a ser perigosamente banais, temos de agir!

Não só na Grécia, mas em toda a Europa e em todo o lado, temos de lutar por direitos iguais para todos.

A nossa solidariedade para com os trabalhadores imigrantes em greve da fome na Grécia é incondicional.

Legalização já! Igualdade de direitos já! Abolição das fronteiras!

APELA-SE À MOBILIZAÇÃO DE ACTIVISTAS SOCIAIS PARA CONCENTRAÇÕES JUNTO DA EMBAIXADA E DO CONSULADO DA GRÉCIA EM PORTUGAL.

Iniciativa Anarquista em Portugal de solidariedade com a luta dos imigrantes em greve da fome na Grécia

Retirado de: Indymedia PT

domingo, 13 de fevereiro de 2011

[Grécia] Keratea-Lavreotiki: Dois meses de terrorismo



Na terça feira, 8 de Fevereiro, pelas 04:00, culminou o ataque coordenado da ditadura democrática contra o povo de Keratea (Ática, Grécia). Desde 11 de Dezembro, e durante os últimos dois meses, os residentes e as pessoas em solidariedade resistem fortemente contra o projecto de construção do aterro sanitário na área de Lavreotiki. As pessoas opõem-se, por qualquer meio ao plano da “deterioração das suas vidas e a pilhagem das riquezas naturais” que estão a planear as empresas de construção e suas muletas políticas.

A resistência da sociedade local através de instituições, mas também através da generalizada contra-violência social ( como confrontos quase diários com a polícia nas barricadas com cocktails molotov, atirando pedras e com sabotagem das obras de construção ) não poderia ser deixada sem resposta.

Numa motivação (no que diz respeito a esta área) sem precedentes de instrumentos de todo o mecanismo repressivo do Estado, bastardos de segurança da polícia invadiram casas de lutadores residentes, de modo a criminalizar suas acções e intimidar todos aqueles que resistem. Policias espancaram e prenderam muitas pessoas. A mãe de um dos detidos sofreu um ataque cardíaco, como foi testemunhado até pelo presidente da câmara municipal. Pessoas em solidariedade tentaram impedir a sua detenção e exigiram sua libertação imediata, cercando o departamento local da polícia. Desta forma, o Estado lançou sua operação de estilo militar. Esquadrões da polícia desencadearam uma guerra biológica, com o uso continuo de gás lacrimogéneo e asfixiante, spray pimenta, assim como bombas de “efeito moral”, com o objectivo de exterminar a comunidade local.

O silêncio ensurdecedor dos media corporativos foi mais uma vez, em plena coordenação com a misantropia dos porcos da policia: Enquanto as forcas especiais e policiais à paisana espancavam jovens e velhos, homens, mulheres e crianças “(de acordo com muitos relatórios) e gritavam, por vezes, o nome de Alexis Grigoropoulos mostrando a sua auto-satisfação assassina, nas bancadas do Parlamento, tomava lugar o discurso sobre as alterações da nova política pela Saúde. Os meios de comunicação esconderam completamente os eventos em Keratea-Lavreotiki – (ironicamente, provocando ate a “nostalgia” dos seus ex-boletins de desinformação de última hora ). Ao mesmo tempo que a esquerda corporativa limitou sua reacção a umas perguntas no parlamento, e fez denúncias vagas de violência policial, as pessoas de todas as idades e ideologias estavam a praticar o seu direito à activa auto-defesa, atirando potes, laranjas, pedras e qualquer outro objecto acessível a partir das varandas e nas ruas contra os armados invasores.

Os órgãos da ditadura democrática tornaram toda a região numa zona militarizada, quebraram o bloqueio do Parque Industrial (VIO.PA), ocuparam as principais ruas de Keratea e restringiram os combatentes residentes nas ruas em torno da praça central de Agios Dimitrios. Uma ideia indicativa dos eventos – que o Estado, os patrões e os papagaios dos media querem ocultar – foi o apelo geral da guerra: os sinos das igrejas ressoavam no começo da tarde chamando as pessoas para ir para as ruas, enquanto o rádio municipal de Lavreotiki hospedava (mesmo por algumas horas) correspondências ao vivo contra o regime.

Lavreotiki e particularmente a cidade de Keratea acabou por se tornar uma área bloqueada, de forma literal e figurativa, e isso pode ser comprovado por dezenas de testemunhas oculares enraivecidos, dezenas de cidadãos feridos, entradas para a região guardadas pela polícia, o ataque total contra uma luta radical, condenada à obscuridade pelo regime e seus porta-vozes. Mas, principalmente, é indicado pelo testemunho comum de todos aqueles que denunciaram publicamente a brutalidade do Estado, notando que só por acaso não lamentamos vítimas esta noite (até 02/09). Pelo menos em um caso, um policial à paisana puxou sua arma contra o povo.

O número exacto de feridos, detidos e presos ainda não foi verificado. A única certeza é que a luta dos moradores de Keratea/Lavreotiki é a nossa luta, uma luta à beira do desespero e da mera sobrevivência. Todos os membros da sociedade local (dos mais conservadores ate os mais radicais) reconhecem o Estado como mecanismo de aterrorizar, e chamam de solidariedade que pode e deve ser expressada por qualquer meio, em toda a Grécia e no estrangeiro. Na quarta-feira, 02/09 às 19:00 os residentes e as pessoas em solidariedade chamam uma reunião aberta na praça central de Agios Dimitrios (em frente à igreja), em Keratea.

Haverá mais actualizações sobre a situação em breve
como também um boletim sobre as mobilizações dos últimos dois meses.

Retirado de: Contra Info

[Grécia] Os 4 de Salónica estão em Liberdade!

Os quatro companheiros foram considerados inocentes (excepto de uma acusação menor) das acusações que remontavam às manifestações contra a Cimeira da UE em 2003.

Os quatro acusados estão em Liberdade. Todas as acusações foram retiradas, excepto "desafio grave à autoridade" que foi reduzido para "desafio menor à autoridade". Este é um delito que dá uma pena de 6 meses de pena suspensa, mas nenhum deles será preso a menos que seja processado por qualquer motivo nesses 6 meses. Foi o melhor que os juízes conseguiram fazer, pois eles tinham que ser acusados de alguma coisa para justificar os 6 meses que estiveram presos em 2003.

Uma boa notícia!

[Grécia] Sexta sessão do julgamento dos 4 de Salónica

Quarta-Feira, 26 de Janeiro de 2011, Tribunal de Salónica

Com a acusação completa e com as testemunhas de defesa a serem analisadas bastante à pressa, cabia então ao procurador delinear o porquê das leis utilisadas para a acusação.

As acusações eram: causar explosões com a intenção de por em risco a vida humana, posse de materiais ou aparelhos feitos com o objectivo de causar explosões. O ponto aqui é que a posse pode ser provada, nem que os explosivos tenham estado contigo apenas um segundo. Causar explosões estava ligado à posse, ou seja, tens posses com o objectivo de causar, embora tenham permanecido como acusações diferentes. Combinando o acto de posse com o de causar criou a acusação de "motim grave".

Até agora tudo bem, ou mal, depende de como se olha para isto.

O procurador apontou o que aconteceu em Génova em 2001, e que seria de esperar problemas semelhantes na Cimeira da União Europeia em Salónica em Junho de 2003. O "Black Bloc" era esperado, e estaria preparado, armado com uma variedade de armas com a intenção de por em perigo a vida e a propriedade em desafio à autoridade. No evento, lojas, carros e escritórios foram atacados, danificados ou queimados. Oito polícias ficaram feridos.

Para Michalis ele pediu que fosse condenado por causar continuamente explosões - mais grave que causar uma explosão. Ele não queria acreditar que os polícias hoje pudessem estar enganados na identificação ou a mentir: se a polícia quisesse forjar provas teria usado mais que um agente contra Michalis. Concluiu que a decisão do primeiro julgamento estava correcta e que Michalis devia ser condenado por causar várias explosões, posse de explosivos e motim grave.

Para Kastro, disse que ele atirou 10 molotovs, embora sem por vidas em perigo. Sendo assim, pediu que fosse condenado por posse de explosivos e motim grave.

No caso de Fernando, tanto a acusação de posse como uso de explosivos não foi provada devido a dúvidas de identificação e inconsistência do testemunhos dos polícias. Pediu que todas as acusações contra Fernando fossem retiradas.

Em relação a Simon, ele estava satisfeito com a acusação de ter lançado um molotov com a intenção de por vidas em perigo (no primeiro julgamento foi acusado de várias explosões), e que a posse de 7 molotovs foi provada por 9 testemunhas contra ele. O procurador não queria acreditar que 9 polícias pudessem estar a mentir. Concluiu que ele pode eventualmente ter sido espancado, mas as duas acusações que recaiam sobre ele combinadas criavam a terceira de motim grave.

Depois de um intervalo, 5 dos advogados fizeram as alegações finais a favor dos seus clientes e como parte da imagem que unia todos os casos. Mas, quando o relógio se aproximava das 15h Bakkellas, o advogado de Simon, pediu para atrasar as suas alegações finais visto que o tribunal encerra às 15:30 e assim não teria tempo de concluir. Os juízes queriam que ele continuasse que caso fosse preciso passava o tempo, a tensão subiu um pouco. Uma funcionária do tribunal disse que não aceitava isso pois não iria ser paga pelas horas extraordinárias.

Um dos três juízes já tinha um julgamento agendado para o dia seguinte e na Sexta-Feira ia ser mais um dia de greve para o sindicato dos advogados. As alegações finais de Bakkellas ficaram marcadas para dia 31 de Janeiro bem como a leitura da sentença.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Novo julgamento do despejo do CCL: dia 17 de Fevereiro

Foi marcado o novo julgamento do processo de despejo do Centro de Cultura Libertária. Este julgamento irá decorrer no dia 17 de Fevereiro, pelas 14 horas, no Tribunal de Almada.

Ao longo dos últimos dois anos, o Centro de Cultura Libertária tem-se debatido com a ameaça de perder a sua sede, na Rua Cândido dos Reis em Cacilhas, devido a um processo de despejo movido pelo proprietário do edifício. Após ter sido condenado a abandonar as suas instalações, num julgamento realizado em 2009, o Centro de Cultura Libertária recorreu da sentença para o Tribunal da Relação. O resultado deste recurso foi favorável ao CCL e deu origem à marcação deste novo julgamento.

No meio da incerteza quanto à manutenção deste espaço que tanto amamos, agradecemos a solidariedade de todos @s companheir@s que nos apoiaram. Sem este apoio, dificilmente teríamos conseguido manter o nosso espaço até agora.

Centro de Cultura Libertária
6 de Fevereiro de 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

[Porto] É hora de inverter as pirâmides do poder

É hora de inverter as pirâmides do poder! Foi o sentido de uma solidariedade que também tem, muito, a ver com a luta que se faz por cá!
Porto, Ribeira, hoje à tarde.

Foi distribuído um texto que acabava da seguinte forma:

A revolta, que é o estado natural da humanidade em situações de injustiça, é, neste momento, mais visível e mais aguda no Magrebe. Mas para quem, também por aqui, anda farto de pagar as crises dos outros e de contribuir para que os ricos prosperem, esta parece uma boa hora para perder o medo e ajudar os tunisinos e os egípcios a fazerem história. Porque, apesar de estarmos geograficamente distantes, a nossa luta é a mesma, a nossa dor é a mesma e a nossa liberdade é a mesma. E, se tocam num, tocam em todos. Sejamos solidários, apoiando-os nas suas lutas, desmascarando os seus (e, portanto, nossos) inimigos e, acima de tudo, trazendo o combate que nos une também para aqui.

Eis o texto completo do folheto distribuído:

Lições de dignidade

No Egipto, em 1991, por alturas da guerra do Golfo, foi imposto um devastador programa do FMI. As receitas habituais de desregulamentação dos preços dos alimentos, de privatização geral e de medidas de austeridade maciças levaram ao empobrecimento da população egípcia e à desestabilização da sua economia. O Egipto era louvado como um aluno bem comportado do FMI. Na Tunísia, o papel do governo de Ben Ali foi impor os mesmos remédios económicos mortais.

Tanto Hosni Mubarak como Ben Ali permaneceram no poder, porque os seus governos obedeceram e aplicaram efectivamente os princípios de organização económica que interessa ao mundo ocidental. Para muitos cidadãos dos Estados Unidos e da Europa, descobrir que a Tunísia ou o Egipto são ditaduras foi uma enorme surpresa. Os governos nunca nos avisaram sobre eixos do mal que incluíssem estes países, os média nunca nos inundaram com relatos de violações de direitos humanos, ainda hoje relatam mortes de manifestantes como meros danos colaterais, chatos mas óbvios, e não podemos senão especular sobre como seriam as notícias se isto se passasse, por exemplo, no Irão, e tudo se manteria assim se os tunisinos e os egípcios não tivessem tomado as ruas a denunciar essa situação e todas as outras decorrentes do modelo económico imposto.

Quando decidiram fazê-lo, foi com a força de vontade de quem está, real e genuinamente, farto. Apesar de todo o dispositivo de segurança, apesar de serem feridos aos milhares e assassinados às centenas, o povo egípcio continua a alimentar as ruas com vagas sucessivas de protestos. Fazem-no por liberdade, por dignidade, por um futuro melhor, pela educação das suas crianças, pelo direito a terem um lugar sentado à mesa da qual foram excluídos pelo colonialismo.

A mesma coragem que não foi demonstrada pelas operadoras de telecomunicações que cumpriram zelosamente as instruções governamentais para suspender os seus serviços em algumas áreas do Egipto. A lembrar que, por muita liberdade e direito à palavra que professem, as empresas esquecem rapidamente os seus spots publicitários e trocam com alegria os direitos humanos pela continuação da rentabilização das suas operações. Só para quem não se recordasse de que lado cavalgam empresas como a Vodafone, que, no caso egípcio, tem dado uma ajuda de facto a Mubarak.

O Ocidente olha as coisas com preocupação. Se, por um lado, não quer que os seus fiéis fantoches sejam derrubados, por outro, não pode ser visto a socorrê-los abertamente. O apoio generalizado a Mohamed Al-Baradei é uma saída. Com a sua reputação de dissidente rival do presidente Mubarak, possivelmente terá algum apoio entre a respeitável classe média do Egipto. E a sua ideologia não é "extremista". É segura, respeitável, confiável, liberal. Os telejornais de todo o mundo começarão a apresentá-lo como a alternativa lógica, se não começaram já.

O poder ocidental sobre o Egipto, que começa, também ele, a ser desmascarado nas ruas do país, é apenas um dos pesos a considerar. As grandes multinacionais, que tanto têm prosperado no Magrebe, têm interesses convergentes e, como tal, são parte importante e fundamental do prato onde se aloja o Ocidente. Com capacidade para fazer pender a balança para outro lado estão, por exemplo, as forças não seculares que, apesar de não estarem na génese dos protestos, têm um campo fértil para se desenvolver, num Egipto de maioria islâmica, onde 85% dos crentes em Alá vê como positiva a influência do Islão na política do país.

A saída definitiva da rebelião não é clara. Da revolta, pode nascer um novo governo em que tudo mude para que tudo fique igual, uma solução em que o poder religioso se imponha ou uma revolução que signifique um ataque aos alicerces do sistema actual. A nossa esperança, no entanto, está com o povo egípcio e a capacidade que tem tido de, sob condições duríssimas, fechar a cortina à ditadura, recusar a deterioração do seu nível de vida e inventar formas de organização.

A revolta, que é o estado natural da humanidade em situações de injustiça, é, neste momento, mais visível e mais aguda no Magrebe. Mas para quem, também por aqui, anda farto de pagar as crises dos outros e de contribuir para que os ricos prosperem, esta parece uma boa hora para perder o medo e ajudar os tunisinos e os egípcios a fazerem história. Porque, apesar de estarmos geograficamente distantes, a nossa luta é a mesma, a nossa dor é a mesma e a nossa liberdade é a mesma. E, se tocam num, tocam em todos. Sejamos solidários, apoiando-os nas suas lutas, desmascarando os seus (e, portanto, nossos) inimigos e, acima de tudo, trazendo o combate que nos une também para aqui.